terça-feira, 27 de abril de 2010

Pinhão. Bolinhos de carne e pinhão no vapor com molho de tomate


Estes descascadores artesanais funcionam - espremem o pinhão pra fora da casca, mas tem que estar bem cozido e ainda quente
Enquanto Santa Catarina e Paraná brigam pela origem do pinheiro-do-Brasil e gralhas azuis coçam o cocuruto pra tentar lembrar onde escondeu o último pinhão, pinheiros canadenses e outras monoculturas vão se instalando nos campos antes ocupados pela Araucária angustifolia.
Privilégio dos brasileiros da parte sul do país, ele ainda pode ser encontrado em regiões frias como as da Serra da Mantiqueira, abrangendo parte de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. Estes meus, por exemplo, vieram de Aiuruoca, presente da vizinha e amiga Mônica Montenegro que me trouxe uma sacolada. Estamos comendo aos poucos, puro mesmo, só cozido. E agora à tarde começou a mudar o tempo, ficar com cara de inverno. Por isto o chá e o pinhão quente aqui ao lado do computador, a manchar unhas e teclado. Foi sobra do almoço, quando ele virou bolinho improvisado com carne moída e molho de tomate. E, no jantar, vai virar ainda outra coisa, que ainda não pude prever.
Na natureza, a cutia e o pássaro gralha azul são os grandes responsáveis pela reprodução dos pinhais - a gralha azul enterra as sementes em época de fartura para comer depois, porém esquece o local que enterrou e as sementes acabam germinando. Este seu papel sempre foi fundamental na preservação dos pinheiros, pois, à medida que os homens derrubavam pinheiros para extrair a madeira, outras plantas nasciam no lugar. Porém, o extrativismo conseguiu ser mais rápido na quase total dizimação não só dos pinhais mas também das cutias e gralhas azuis.
E hoje a substituição das araucárias nativas por espécies exóticas com finalidade madeireira tem sido ainda mais descarada. Quando a gente vê "tanto" pinhão por aí, é bom saber que já não é tanto assim, já foi muito mais. Parece que, da área total que havia de araucárias, agora só resta 1%.
E pensar que estas sementes fizeram parte do cardápio diário dos soldados paulistas recrutados para as guerras do Prata, no caminho até Rio Grande do Sul. O bornal, que recebiam vazio no início da viagem, durante o trajeto era recheado de pinhões coletadas no longo caminho repleto de pinheiral. No sul do país, constituiu um dos principais alimentos dos índios que conheciam diversas formas de preparar e conservar as sementes.
Crus, os pinhões têm aspecto e textura de mandioca - opacas, crocantes e leitosas. Depois de cozidas, o amido gelatiniza e elas se tornam macias mas cerosas, translúcidas, com coloração creme. Depois de descascadas (a parte mais chata, resolvida com o descascador artesanal da foto), as sementes podem ser picadas ou trituradas e usadas em risotos, molhos, sopas, cremes, recheios, farofas, paçocas, pães entre tantas possibilidades.
E, d
iferente das nozes, amêndoas e pinoles, os pinhões tem composição mais parecida com a das castanhas portuguesas, na proporção de carboidratos e lipídeos. Pelo alto teor de amido e pouca gordura (em 100 g de pinhão cozido, cerca de 42 g de carboidrato para 1,34 g de gordura), eles não ficam crocantes mesmo quando tostados ou assadas.
Mas, vamos à receita dos bolinhos, que, embora improvisados, ficaram gostosos. O pinhão deu sabor e nutrientes, não interferiu na textura de almôndega e aumentou o rendimento (afinal, a gente não precisa de tanta carne quanto parece). E é fácil de preparar.



Bolinhos de carne e pinhão no vapor com molho de tomate
Para os bolinhos
150 g de pinhão já cozido e descascado (cerca de 1 xícara)
300 g de carne moída (acém)
1,5 colher (chá) de sal
3 colheres (sopa) de cebola picada
3 colheres (sopa) de salsinha picada
1 fatia ou 30 g de pão caseiro integral (ou use o que tiver)
3 colheres (sopa) de leite
1 colher (chá) ou a gosto de pimenta calabresa ou outra que preferir
Para o molho
Meia cebola picada
1 colher (sopa) de azeite
1 lata de tomate pelado
1 colher (chá) de orégano
Folhas de alfavaca ou manjericão
1/2 xícara de água
Sal a gosto
Prepare os bolinhos: bata os pinhões no processador até ficarem bem triturados. Junte a carne, o sal, a cebola, a salsinha, o pão esmigalhado e hidratado no leite e a pimenta. Bata só até misturar bem. Faça bolinhos, usando utensilio para fazer almôndegas (como já mostrei aqui) ou molde cilindros na mão (usei molde para kafta e cortei ao meio). Leve para cozinhar no vapor por cerca de 5 minutos.
Prepare o molho: numa frigideira grande, coloque a cebola e o azeite e, mexendo, deixe murchar. Junte o tomate pelado (pique grosseiramente) com o caldo. Tempere com orégano, alfavaca ou manjericão, água e sal. Tampe e deixe cozinhar por cerca de 5 minutos. Junte mais água se for preciso. Tire os bolinhos do vapor, um a um, com uma colher, e ajeite-os sobre o molho com cuidado para que não se desmanchem. Com arroz, salada e nhac!
Rende: de 4 a 6 porções

11 comentários:

Ana disse...

Também já escrevi sobre o pinhão (também né,aqui as árvores estão por todas as ruas e praças !!). Em casa faço sopa e costumo colocar no arroz e salada.Domingo incrementei uma farofinha com couve, milho verde e pinhão. Na época de safra, que tá começando, uso como "Bombril", mil e uma utilidades.
E também aproveito para congelar e ir usando quando bate a vontade.
Experimentem com vinho quente que aqui se chama quentão e não é como o quentão paulista, com pinga.
Outra tradição aqui é o pinhão tostado/sapecado, na chapa do fogão à lenha ou numa fogueira ao pé da araucária mesmo, com os "sapés" que são as folhas secas da árvore e são ótimas para começar um bom foguinho, embora machuquem as mãos.
Escrevi demais, um beijo.
Ah e pra escolher o pinhão, o melhor é aquele com as pontinhas verdes, pois indica que é novo, recém caído do pé.

Carla Regina disse...

Neide,

onde você arrumou esse descascador de pinhão? Ainda não achei nada parecido aqui (se bem que a idéia parece simples, acho que vou solicitar meu pai-marceneiro para a tarefa).

Bjs

Gina disse...

Já fiz um post bem detalhado sobre o pinhão. Como disse minha amiga Ana, em terra de pinhão a gente tem mais é que valorizar e divulgar.
Publiquei um casadinho de pinhão recheado com provolone e orégano, sopa com mandioquinha e uma cuca com farofa de pinhão.
Uns imigrantes italianos de Colombo, cidade vizinha, me disseram que as folhas secas são chamadas de "grimpas".
O pinhão permite uma grande variedade de usos e como é gostoso!
Bjs.

Heguiberto disse...

Oi Neide,
Cresci comendo pinhão, cujas árvores se fazem presentes como vc disse na região da serra da mantiqueira em SP e Minas, além do sul do Brasil. Pena que as florestas estão sendo destruídas foram destruídas. Acho as araucárias de uma beleza singular. Nosso Brasil continua liderando o ranking do desmatamento global. Triste né? Será que o Brasil sabe de sua riqueza? Vivo questionando sobre o assunto. Talvez somos perdulários mesmo... vamos consumir tudo mesmo né? Bem aqui fica meu desabafo.
Se algum dia vc tiver chance vá ao Horto/Parque florestal de Campos do Jordão. Eles têm ou pelo menos tinham uma floresta de araucária lindíssima.
Heguiberto

Neide Rigo disse...

Ana e Gina,
imagino que vocês, aí em Curitiba, tenham muito mais contato com pinhões do que eu aqui na selva de pedra. E certamente têm mais habilidade com ele. Obrigadíssima pelas dicas.

Carla, este descascador é de Lages - SC. Mas já vi algo parecido pra vender em lojas de artigos para cozinha.

Heguiberto, é uma pena mesmo. Agora a China vai instalar aqui grandes monoculturas de soja e milho, em Goiás. Então, vá vendo... Eu até já fiquei hospedada no Horto de Campos do Jordão. Pra mim, é o lugar mais lindo de lá. Fica a dica para os leitores.

Um abraço, N

Nai Romero disse...

Neide, que engenhoca esta para descascar!!!

Pinhão é mesmo uma delícia, mas não fez exatamente parte da minha alimentação infantil porque além de eu sempre ter nojo de coisas diferentes (hahah!) não encontra-se muito na minha região.

Agora, que moro em Assis, tem épocas que vejo, mas nunca me arrisquei fazer; no ano passado levei muitos quilos pra minha vó (ela queria dois, mas eu pesava e nunca chegava, até enchi demais e resolvi que ia levar aquele tanto mesmo) e foi uma festa! Ela morou no Paraná quando pequena, então estava mais familiarizada.

Comemos só cozidos mesmo, com um pouquinho de sal. Mas fiquei curiosa para comer uma farofa que os leva picadinhos - acabei vindo embora antes de ela fazer.

De qualquer modo, a engenhoca seria uma boa, visto que ela (minha vó) me fez o favor de cortar o dedo e protagonizar uma sangria desatada (imagina uma pessoa que toma anticoagulante cortando o dedo a ponto de dar pontos!).


Abraços.

Neide Rigo disse...

Nai,
realmente a engenhoca ajuda muito. Também já me cortei abrindo pinhão. Bem, espero que se anime a comer pinhão de outros jeitos. bjs,n

Gaúcha expatriada disse...

Que saudade que me deu...

clau disse...

Ah...que barbaro este seu estrebuchador de pinhao!! rss
Pq eu adoro comer pinhao, mas fico descascando um monte, antes, para poder me saciar, depois; sem interrupçoes. rss
Vou anotar as suas receitas, Neide!
Bjs!

Anônimo disse...

Olá, Neide.
Adorei essa matéria que vc fez sobre pinhão.
Dei muita risada quando vc disse que as "gralhas azuis coçam o cocuruto pra tentar lembrar onde escondeu o último pinhão". Juro que imaginei uma gralha azul coçando a cabeça e pensando "Onde foi mesmo que eu escondi aquele pinhão??" rsrs. Mas ainda bem que esse pássaro tem esses lapsos de memória. Não fosse esse desmiolado (brincadeira hein gente)provavelmente as araucárias já estariam extintas, visto que o homem tem o "dom" de destruir tudo.
Mudando de assunto...Que bom que o friozinho tá chegando. Vou comer pinhão até enjoar! hehe

Bjus =)

Erika (Maringá-PR)

Carol Guilen disse...

Na viagem ao Vale dos Vinhedos, na semana passada, Dan e eu conhecemos o bolinho de pinhão - só pinhão, sem carne. Substitui ela perfeitamente...estou atrás de uma boa receita, pois, é claro, trouxemos pinhão pra continuar degustando a viagem em casa!! ;)