segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Cenas de Tiradentes

Já tinha ido duas ou três vezes ao Festival de Tiradentes logo no começo, anos atrás, só pra aproveitar as atividades - aulas e festins. Agora fui dar uma palestra e de novo com a intensão de aproveitar o clima festivo da cidade, agora com muito mais atrações gastronômicas e culturais.

Confesso que as únicas atividades de que consegui participar foram a palestra do Luiz Américo sobre crítica gastronômica e a oficina do Wanderson Medeiros, do Picuí, sobre carnes secas. Muito boas, por sinal.  De resto, foi só comilança. O ruim é que foi muito rápido. Cheguei na sexta à noite, tomei café da manhã na pousada Pequena Tiradentes, encontrei minha amiga Pixu, dei minha palestra com sala cheia e participativa, vi as duas atividades, fui almoçar com a Mara Salles no Virada do Largo, da Beth Beltrão, onde conhecemos sua horta de couve e  ficamos até o começo da noite com amigos de BH que fizemos lá. Comemos e bebemos muito bem.  Fui pra a Pousada Pé da Serra, onde estava hospedada e logo depois já rumávamos para o jantar no restaurante Kitanda Brasil da Tanea Romão, que fica num lugar lindo. Comemos delícias no menu degustação e eu comeria muito mais de alguns dos itens (aliás, não quero mais saber de menu degustação, não pela comida, mas pelo formato que não funciona mais pra mim). Estávamos em cinco na mesa, Pixu, Kaká, Mara, Dedé e eu.  E o estagiário fofo da Tanea (Vitor #ficavitor) veio todo gentil mostrar os vinhos escolhidos para harmonizar com a comida, mas tínhamos comido tanto no almoço, e terminado tão tarde nossas costelinhas brilhantes e macias, a linguiça da casa com cebolas roxas carameladas, a couve, o virado, o torresmo..  e bebido tanta cerveja, que não quisemos saber de vinho ou qualquer outra bebida alcóolica. A garrafa de água gentilmente oferecida sobre a mesa da Tanea foi renovada seis vezes. Acho que nunca bebi tanta água. Teria aproveitado bem mais as pequenas porções do menu se tivesse comido menos e mais cedo no almoço, mas também não podia desperdiçar a oportunidade de comer na Tanea, sempre tão criativa. No outro dia cedo, aproveitei a carona da Pixu e voltei depois do café da manhã, dispensando o vôo da noite. Tão melhor vir conversando e apreciando a paisagem durante sete horas que amargar uma hora de vôo apertado mais as três ou quatro horas de carro até BH.

 Sábado fez um dia lindo e os ipês amarelos floridos me fizeram tão bem, assim como as papoulas serenadas.  Algumas fotos de lá.

Cozinha da pousada Pequena Tiradentes
Pequena Tiradentes parece uma cidade
Pão de queijo da Pousada Pequena Tiradentes

Suzana-de-olhos-negros com sereno, na pousada Pé da Serra
Gato da pousada Pé da Serra
Papoula na pousada Pé da Serra
No Virada do Largo

Mara Salles, Beth Beltrão e os pés de couve maires que elas

Beth Beltrão com as favas que ganhei

No Virada do Largo, com novos amigos
Lambarizinhos (de folhas) da Tanea  Romão

Bolinho de arroz com salsa, da Tanea

Creme de mandioca com ora-pro-nobis e porco em redução de laranja
Entrada do restaurante Kitanda Brasil 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Interação urbana, doa-se jornal lido e ganha-se almeirão plantado


Não sou uma pessoa muito gregária, não sou do tipo militante, não consigo me comprometer nos trabalho de equipe que envolvem muitos projetos e divagações, mas também não sou de ficar quieta reclamando da vida, da violência, do trânsito, da falta de tempo, da poluição e das agruras de uma grande metrópole como São Paulo.  Há algum tempo percebi que posso ter uma outra relação com meu bairro além do bom dia boa tarde entre os vizinhos.

Pela minha rua passa gente de todo canto, que também pertence ao bairro, já que passa aqui parte do dia trabalhando. Quando iniciei, com minha vizinha Ana Campana, a  horta comunitária City Lapa num pequeno espaço antes habitado por restos de poda grande e sacos de entulho, ouvi barbaridades de todo tipo de alguns vizinhos, como por exemplo que o pessoal da estação não iria respeitar a horta, que iria jogar lixo, que iria roubar as verduras (pra comer), num discurso carregado de preconceito.

Muitas pessoas que chegam de trem são de Barueri, Itapevi, Osasco, Presidente Altino ou às vezes vem de mais longe. São porteiros, recepcionistas, recreacionistas, professoras, guardas, seguranças, cozinheiras, acompanhantes etc. Eu também chego de trem, é bom dizer, e acho um luxo ter uma estação perto de casa que me leva ao metrô em duas estações.  Depois que iniciamos a horta, acabei conhecendo muitas destas pessoas, ao menos de vista, de sorrisos, cumprimentos simpáticos e elogios à iniciativa. Eles param, um perguntando se temos guaco, outro oferece chuchu brotado, quer conhecer um pé de boldo, um quer uma folhinha de bálsamo, outro diz que nunca tinha visto vinagreira fora do Maranhão, e assim seguem para o trabalho, deixando a impressão de que vão mais contentes, de que se relacionaram de alguma forma com o caminho por onde passam, agora com flores e ervas cheirosas.  Nunca vi jogarem lixo e só de vez em quando pego um papelzinho ou outro no chão perto da lixeira do poste, que deve ter caído no ato do recolhimento pelos garis.

Outro dia, uma moça com uma criança e um bebê veio ao clube e aproveitou para passear pela hortinha. Disse que gostaria de morar aqui e que gostava da horta. Foi só eu dizer que o único problema era a atual seca para a menininha, sem dizer nada, tirar uma garrafa de água da lancheira e ir molhar uma flor. Isto me comoveu.

Se uma simples horta no meio do caminho é capaz de modificar o ânimo daquele que tem o dia todo pela frente, isto já me deixa feliz. Agora, se é possível fazer um pouco mais, por que não? Alguns meses atrás percebi que não estava certo ficar guardando pilhas de jornal pra depois descartar tudo no lixo reciclável. Porque não oferecer para que outra pessoa lesse também ainda no dia? Afinal,  ler não apaga a impressão. Marcos e eu lemos o jornal no café da manhã. Por volta de sete e meia, oito horas, quase sempre o jornal já está liberado.  Então, resolvi colocar na calçada para que pegassem.

Se eu tivesse simplesmente deixado na porta, poderiam pensar que era lixo e é sempre encarado com certa humilhação pra muita gente pegar aquilo que foi jogado fora (eu nem ligo). E também poderiam pegar como jornal velho para o xixi do cachorro.  Agora, se eu colocasse um aviso de que estaria doando, se tentasse recompor os cadernos lidos e se protegesse com o próprio saquinho em dias de chuva, ninguém teria vergonha.  Seria como um sorteio, pega quem chegar primeiro. Foi tudo o que fiz, e as pessoas pegam sem pressa ou constrangimento como se fosse o jornalzinho do metrô.

Primeiro escrevi numa lousinha e deixei num suporte que colocava em frente à garagem  - funcionou mas dava mais trabalho, porque tinha que ficar colocando e tirando o suporte. E eu acha feio.  A segunda criação foi um suporte que achei mais charmoso. Ficou mais visível e as pessoas ficaram menos desconfiadas. Também tinha que colocar e tirar e um dia ele sumiu. Levaram o jornal e o suporte também. Quero acreditar que quem levou o apoio o fez por engano, achando que eu estava doando o conjunto completo. Não desanimei, fiz outro fixo, mais funcional.


Eu conheço alguns dos leitores que passam pela rua em horários diferentes e conseguem se revesar conforme meu horário de término da leitura. Outro dia, uma moça, professora de crianças, passou, pegou o jornal e me contou que todos os dias, em que coincidia de pegar, colocava o suporte na porta da minha casa. Eu já tinha percebido esta gentileza, mas achei que fosse algum vizinho. Disse que percebeu que roubaram o suporte  e que aprovou o novo apoio. Contou ainda que não só lê o jornal na escola, mas também lê alguns textos com os alunos.  No começo da semana uma outra mulher me contou que mora em Barueri, trabalha como recepcionista de uma imobiliária, e que no serviço outras pessoas leem o jornal, quando calha de ela pegar, e que ainda lê à noite com os netos, para incentivar a leitura.  

Mas só estou contando tudo isto porque hoje, na hora em que fui colocar o jornal no atual suporte (um cabo de vassoura pregado num vaso de plástico que pintei com tinta de lousa para deixar o recado de doação), passou uma das simpatizantes da horta, da qual ainda nem sei o nome, só que é cozinheira.



Ela não leva o jornal, o negócio dela é planta. Perguntou se eu havia recebido os almeirões que tinha deixado na minha porta há algum tempo (um dia cheguei e havia um vasinho com bilhete).  Respondi que sim, que ela estava diante de um dos exemplares, plantado bem ali na calçada. Os outros, plantei na horta. Ela ficou feliz, perguntou o que era aquele pé de verdura (mostarda), disse que quer sementes depois e foi correndo, que estava atrasada para o trabalho.


Tudo é só pra dizer que se você não pode fazer muito, não pode mudar o mundo, saiba que basta um gesto pequeno para modificar ao menos o humor de quem está à sua volta, seja quem for. E vai se isto se multiplique, vai que isto vire um viral (ou um varal de coisas assim)? A alegria que vai sentir com o retorno, dinheiro nenhum compra, acredite. E o mundo fica um bocadinho melhor.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Convites de última hora. Hoje, Amanhã, Sábado



Hoje à noite, tem atividade no Sesc Belenzinho do projeto "Comer é Mais", do qual sou curadora. Quem fala hoje É Claudia Mattos, chef do Zym e líder do Slow Food São Paulo. O tema: Slow Food. É só aparecer lá no Belenzinho às 19h30.

Veja lá na página do Sesc no facebook:
Sesc Belenzinho
https://pt-br.facebook.com/sescbelenzinho

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Amanhã, quinta-feira, vou dar uma oficina na USP, Faculdade de Saúde Pública, durante o evento organizado pelo centro acadêmico Emílio Ribas nesta Semana do Nutricionista. Depois da exposição, vamos fazer uma caminhada pelo jardim e pela horta comunitária da faculdade para reconhecimento e discussão.  Inscreva-se já.
16h: Oficina culinária: Um diálogo sobre o cotidiano e a alimentação: resgate da cultura alimentar brasileira

Veja lá na página da Semana, toda a programação e inscrições.
https://www.facebook.com/events/440082966133440/

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E, no próximo sábado, vou estar no Festival de Tiradentes e vou falar às 11 horas.
http://www.gastronomiatiradentes.com.br/index.php/espaco-senac-largo-das-forras/
Veja a programação do dia (e as demais, no link acima)

30 de agosto – sábado
10h00 - 10h45
Food Truck Tex Mex
Arturo Herrera, La Buena Station, São Paulo, SP


11h00 - 11h45
Cozinha brasileira além do trigo
Neide Rigo, blog Come-se, São Paulo, SP


12h00 - 12h45
Com quantas garfadas se faz um crítico?
Luiz Américo Camargo, jornalista do Estadão, São Paulo, SP


13h00 - 13h45
Carne de caça
Gonzalo Barquero, Cerrado Carnes, São Paulo, SP

Couve-rábano com leite de coco e iogurte

Os talos e as folhas também são comestíveis, nutritivos  e gostosos
Tenho vergonha de chamar o prato de Kalan, um prato típico do estado indiano de Kerala, mas foi baseado neste que cozinhei minhas últimas batatas de couve-rábano da estação (suspeito que já as encontrarei fibrosas quando voltar ao sítio).  Com toda a liberdade do mundo. E ficou divino.

Eu amo couve-rábano, como cru, inteira, como maçãs. São picantes, adocicadas, crocantes, suculentas. E gosto muito de molhos feitos com coco e iogurte. Qualquer legume cozido em molhos feitos com estes ingredientes, temperados com cominho, folhas de curry, açafrão, grãos de mostarda e pimenta, me deixa feliz por horas.  E outro daqueles pratos vegetarianos que dispensam a carne. O Kalan pode ser feito com bananas verdes em cubos, inhames, carás e outros legumes. No Google você encontra várias receitas originais de kalan. A minha é só uma genérica adaptação - que funciona muito bem, é bom lembrar. E se não tiver todos os temperos, use o que consegue ter.  




Como minha amiga e leitora Ana Perin descobriu que estou na fase de desejar estes temperos indianos, me mandou o vídeo sobre a arte do Kolam, no Sul da Índia, mesmo sem saber que estava fazendo uma imitação do prato com grafia parecida.  Li em algum lugar que originalmente os desenhos, com linhas ligadas, eram feitos com pó de arroz integral para atrair formigas que dele se alimentavam, celebrando assim a comunhão e equilíbrio entre seres vivos. Hoje as mulheres acordam mais cedo que o sol e desenham na porta de casa usando o pó branco, que também pode ser pó de giz. Uma intervenção urbana tão moderna quanto eterna de significado ou quanto efêmera no significante,  afinal as linhas vão se desmanchando no caminhar do dia, dos passantes e do vento.

Couve-rábano no leite de coco e iogurte condimentados

6 batatas de couve-rábano cortadas em cubos 
1 colher (chá) de cúrcuma (açafrão da terra) em pó 
1 colher (chá) de sal
2 colheres (sopa) de óleo de coco
1 colher (chá) de mostarda escura em grãos 
1 colher (chá) de cominho em grãos 
1 colher (chá) de grãos de feno grego 
1 galho de folhas de curry 
1 pimenta dedo-de-moça partida ao meio 
1 xícara de iogurte ou kefir
1 xícara de leite de coco 
1 colher (chá) de pimenta em flocos ou a gosto 

Coloque o legume numa panela e cubra com água. Tempere com a cúrcuma e o sal e leve ao fogo. Cozinhe em fogo baixo até os cubos ficarem macios. Deixe secar quase toda a água.  Reserve. 
Numa outra panela ou frigideira, aqueça o óleo e coloque a mostarda e o cominho. Quando começarem a pipocar, junte o feno grego, as folhas de curry e a pimenta. Refogue um pouco e junte o iogurte e o leite de coco misturados. Aqueça bem e junte os legumes cozidos e a pimenta em flocos.  Cozinhe por alguns minutos só para incorporar o molho. Prove e corrija o sal, se necessário. 

Rende: 4 porções 

E nhac




terça-feira, 26 de agosto de 2014

Repolho e ervilha para o bund gobi aur matter

Gosto destas receitas que combinam dois ingredientes da estação. Ervilha e repolho são colhidos na mesma época. Agora, culturas de inverno.  O prato indiano bund gobi (repolho) aur matter (ervilhas) é um desses refogados simples, confortáveis e quentes,  para fazer de um simples arroz branco um acontecimento, de tanto que se combinam, especialmente no inverno. É também pra carnívoro nenhum sentir falta de um bife. A ervilha faz as vezes do feijão, na combinação de aminoácidos com o arroz. 

Colhi no sítio as ervilhas - ainda tem mais. Um tanto, vou deixar secar e bastante delas vou debulhar e congelar assim, frescas.  O repolho é comprado, mas as folhas verdes de repolho, que também aproveitei, nasceram num pé de repolho em volta da cabeça principal.  Folhas verdes escuras são sempre mais nutritivas, mas colhi mesmo pensando no aproveitamento, já que folhas de qualquer tipo de couve são comestíveis (repolho, brócolis, couve-rábano, etc) e, neste caso, sabem à repolho, claro, sendo apenas um pouco mais firmes. 

A receita pede ingredientes que talvez você não tenha, mas a fórmula sofre muitas variações mesmo entre indianos. Então, se não tem alguns dos ingredientes, faça com o que tem, desde que mantenha a pimenta, o açafão-da-terra, o cominho, o açúcar e o limão (aliás, esta é uma combinação infalível para vários legumes e verduras na cozinha indiana). 

Segue aqui minha receita também com algumas variações, como na proporção de repolho e ervilha (usei o que tinha, mas normalmente é maior a quantidade de repolho) e no acréscimo do pó de curry como reforço - só para usar o que fiz, mas não precisa. 

Repolho com ervilhas e especiarias (bund gobi aur matter)

2 colheres (sopa) de óleo (use de girassol orgânico ou ghee, se puder)
1 pitada de assafétida 
1 colher (chá) de grãos de cominho 
1 colher (chá) de grãos de mostarda escura
1,5 xícara de grãos de ervilhas frescas
2 pimentas dedo-de-moça verdes cortadas ao meio de comprimento 
2 xícaras de repolho cortado fininho (pode misturar com as folhas de repolho)
1 colher (chá) de cúrcuma em pó (açafrão da terra)
1 colher (chá) de pó de curry
1 pitada de pimenta seca (tipo calabresa ou daquelas em flocos para kimchi)
3/4 colher (chá) de sal ou a gosto
1 colher (chá) de açúcar 
2 colheres (sopa) de limão 
Folhas de coentro à vontade 

Aqueça o óleo em fogo médio numa panela. Quando estiver quente, junte a assafétida, o cominho e as sementes de mostarda. Quando os grãos começarem a pipocar, junte a ervilha e as pimentas. Refogue para impregnar os grãos. Junte o repolho, a cúrcuma, o pó de curry, a pimenta, o sal e o açúcar. Misture bem, abaixe bem o fogo, tampe a panela e deixe cozinhar até os legumes estarem macios. Se precisar, junte gotas de água. Cerca de 15 minutos depois, prove o ponto dos legumes e o sal. Corrija se for necessário. Adicione o limão, mexa e junte as folhas de coentro. Apague o fogo e sirva bem quente. 

Rende 4 porções 
E nhac (com arroz e fritada de sobras de carne moída de recheio)


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Bulbos de trevo ou azedinha

Quem respondeu bulbos de trevo acertou. Estava fácil a charada apenas para quem conhece a planta que nasce à toa nos vasos, jardineiras e em lugares reservados às plantas cultivadas. E especialmente para quem tenta controlar sua população arrancando a planta toda. Às vezes os bulbinhos estão alojadas profundamente e o que se consegue arrancar são apenas os talos frágeis que crescem em direção à luz meio estiolado. Para conseguir controlar, é preciso tirar os bulbilhos que se parecem se multiplicar em progressão geométrica.


O gênero Oxalis agrupa muitas espécies conhecidas popularmente como azedinhas, inteiramente comestíveis. Tem das graúdas e das miúdas, das verdes e das roxas. Crianças parecem nascer sabendo que a planta é comestível e refrescante. Não me lembro de ter aprendido com alguém que podia de vez em quando comer os talos tenros e folhas ácidas dos trevos para refrescar.

Hoje eles estão espalhados por toda a América e são considerados plantas daninhas. Mas há muitos registros de seu consumo (várias espécies) por índios americanos - as  folhas cozidas ou cruas.  Há espécies com bulbos mais desenvolvidos, caso das ocas (Oxalis tuberosa), das quais já falei aqui - já plantei e colhi.

A planta é rica em ácido oxálico (caso também do espinafre, ruibarbo, azedinha etc) e por isto não deve ser comida aos montes. Mas uma folhinha aqui, outra ali, tudo bem. E as flores também, as rosas, amarelas, pinks.  Os bulbos são minúsculos como grãos de ervilha e, mesmo que queira comer uma pratada, só vai conseguir se tiver quem os limpe pra você. Um bom limitante para que não coma muito é sempre colher e limpar seu próprio bulbilho.  São gostosos, lembram batatas em pétalas, pois os bulbos são formados por várias camadas densas que se juntam firmemente. São mais interessantes pela textura que pelo sabor. E o valor nutricional nem deve ser levado em consideração dada a pequena quantidade que vai comer, mas, claro, tem vitaminas e minerais.  


Prefira arrancar as batatinhas (e isto é um ótimo controle populacional) de vasos que você mesmo cultiva e sabe que não colocou na terra nenhuma substância tóxica. Jardineiras abandonadas são pratos cheios para a planta.  Lembre-se que no fim da tarde as folhas se dobram e as flores se fecham. Melhor comer saladas no almoço que no jantar.

Na salada, os bulbos fazem uma graça. Já os comi cru, mas não gostei. E também por causa do ácido oxálico, melhor cozinhar.  Prefiro cozinhar em água e sal e refogar rapidamente em óleo de girassol virgem e orgânico (que tem sabor de alcachofras), completar com mais óleo cru, vinagre, sal e jogar sobre folhas verdes, que podem ser ou não os próprios trevinhos.  E nhac! Ou coloque junto do arroz na hora de cozinhar. Ou afervente e coloque na fritada. Ou invente seu jeito.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

O que é, o que é?


Já sabe, né? Então diga aí. O que é? Na segunda eu confirmo.
Bom fim de semana!

Convite: lançamento do livro do Marcelo Terça-Nada

O amigo Marcelo Terça-Nada, do Slow Food, jovem mineiro com sotaque, talentoso e querido, faz parte da dupla Poro junto com a artista Brígida Campbell. Juntos fizeram mais um livro, o "Pequeno Guia Afetivo a Comida de rua de Salvador".  É uma mistura de glossário, dicionário e guia das comidas que mais amamos quando andamos pelas ruas de Salvador, cidade onde hoje vive Marcelo. Não vi o livro ainda, mas, se conheço bem o profissional, já gostei.

O lançamento em São Paulo será neste fim de semana na 6ª Feira Tijuana de Arte Impressa, na Casa do Povo - Rua Três Rios, 252, Bom Retiro, das 12 às 20 horas.

A banquinha do Poro ficará no segundo andar. Para encontrar, é só procurar pelo famoso cartaz da dupla:
http://poro.redezero.org/cartazes/cartaz-cozinhar-e-um-ato-revolucionario/. Marcelo só pede para que não deixem para a última hora, porque há poucos exemplares.

Veja mais sobre o livro aqui.


Caril. Pó de curry com folhas de curry pra fazer curry

Acho que não é novidade nenhuma dizer que pó de curry é feito com folhas de curry junto com outras especiarias e usada para fazer o prato curry. A mistura, nascida da mente inglesa, foi uma tentativa de resumir num só pó a combinação de especiarias usadas pelos indianos nos pratos de curry, onde entram também as folhas próprias para se fazer estes curries, da planta Murraya koenigii. 

Para quem quer saber mais sobre o vegetal popularmente chamado de "folha de curry", veja lá no post que escrevi anos atrás. 

Acontece que recentemente participamos de uma verdadeira operação de resgate de uma árvore já adulta e a replantamos no sítio. Dei pra minha amiga Veronika uma mudinha e esqueci de dizer que virava uma moçona grande. E que depois pode se espalhar, lançando brotos distantes da planta mãe, e que as raízes chegam a atravessar a rua, como acontece na frente da casa da Nina Horta (veja como Nina conseguiu).  Aliás, a planta dela é a mãe de todas as que já tive, tenho e presenteei, incluindo esta da Veronika, que quis transferir a planta para lugar maior antes de se mudar pra Barcelona - com medo de voltar e encontrar sua casa tomada por floresta indiana. 

Então, fomos até sua casa, podamos a árvore e conseguimos tirar a árvore toda com um torrão de terra - no outro dia levamos para o sítio e replantamos num lugar onde será útil para conter erosão (na Ásia a planta é usada com este fim para além do aroma).  O fato é que com a poda me deparei com uma baciada de folhas soltas. Ia esperar secar e usar como palhada no minhocário ou na horta comunitária. Mas tive dó. Sorte que estavam limpas, lavadas, havia caído uma boa chuva antes.  Tentei secar ao sol na própria bacia, mas era muita coisa, então meti tudo dentro de um saco de voal, fechei e coloquei na máquina de secar roupa. Ficaram sequinhas e assim pude destacar as folhas dos galhinhos e guardar para fins diversos. Se não conhece, digite aí no campo de buscas "curry" ou "caril" e veja quanta receita boa se faz com ele. Se quiser comprar mudinhas, procure o viveiro Ciprest, aí nos links. 

Com a grande quantidade que consegui, resolvi fazer uma grande quantidade de pó de curry para guardar pronto, aproveitando também para fazer uma experiência, incluindo além destas folhas outras também aromáticas que encontrei no sítio. Há ali um arbusto de canela, não sei de qual espécie, mas certamente do gênero Cinnamomum, com folhas super perfumadas, como se fosse o pau de canela mais suave. Dizem que as folhas são mais ricas em eugenol, típico aroma de cravo da índia, mas estas folhas sabem mesmo à canela e não a cravo. 

Bem, aqui vai a receita para um pó de curry delicioso, totalmente adaptado para o que tinha em mãos. Mas você pode diminuir as folhas de curry e excluir as de canela, que terá como resultado a receita clássica.



Pó de caril 

1 litro de folhas de caril 
1 xícara de folhas de canela
1 xícara de grãos de coentro 
1 xícara de grãos de cominho 
1/4 de xícara de grãos de mostarda 
1 colher (sopa) de grãos de pimenta-do-reino
1 colher (sopa) de feno-grego 
4 dentes de cravo 
1 colher (sopa) de gengibre em pó 
1 xícara de cúrcuma (açafrão da terra, em pó)
1 colher (sopa) de pimenta seca em flocos

Toste as folhas em frigideira só para quem fiquem bem secas e quebradiças. Reserve. Toste as especiarias (reserve o gengibre, a cúrcuma e a pimenta em flocos), mexendo sempre, até começar a liberar perfume. Misture as ervas e as especiarias tostadas e triture no liquidificador, com cuidado, desligando, mexendo, ligando de novo. Por fim, junte a cúrcuma, o gengibre e a pimenta. Misture bem e guarde em vidros.  Rende mais ou menos 1 litro



















Em breve, uma receita para usar este pó. 




quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Chuchu recheado. Chayote relleno

Em Porto Rico o chayote relleno é um jeito comum de se preparar o chuchu e foi minha inspiração. Por aqui chuchus não costumam ser escavados e recheados, mas é um prato que pode ser único quando se quer uma refeição mais leve.

Gosto de salada feita com o vegetal cozido ou refogado simplesmente em óleo e alho, com cheiro verde e pimenta-do-reino no final. Há tantas outras formas de prepará-los, porém, com tantos chuchus esperando uso,  resolvi experimentar uma receita nova para variar.


Voltei de Curitiba com tantos chuchus na bagagem que minha mãe não acreditou que eu pudesse carregar a mala. O chuchuzeiro cresceu num pequeno muro, no jardim/ horta da minha mãe (como o meu, é tudo misturado, flores e utilidades) e a maioria dos que trouxe já estava brotando em cima do telhado da vizinha, que por acaso é minha irmã. Coloquei a escada, puxei com o rodo e recolhi quanto pude. Um tanto, ainda deixamos na calçada para que os pedestres pegassem.

Os brotados que trouxe já presenteei e plantei no sítio. Sobraram alguns não brotados, bastante espinhudos.  Já tive um parecido na grade de frente da minha casa, só que este é muito mais agressivo. Os "espinhos" incomodam na hora de colher, porém, basta passá-los por água morna que eles abrandam.  Bem, aqui o jeito que fiz, meio sem receita, que não precisa.

Um deles era felipe

Chuchu recheado

Com um descascador de legumes, tirei o excesso de casca e "espinhos". Escavei para tirar os germes (que usei depois). Cobri com água, temperei com sal e deixei cozinhar por 30 minutos ou até que ficassem macios. Escorri e escavei mais - esta polpa cozida e escavada, piquei e reservei.


Na frigideira com óleo, juntei uma pitada de cominho e deixei começar a pipocar em fogo médio. Coloquei alho e cebola e refoguei até dourar. Acrescentei a carne moída (300 g para 6 chuchus) e temperei com sal, pimenta e alho negro da Marisa Ono picado (não precisa, mas eu queria usar). Refoguei até que ficasse cozida e soltinha a carne.  Juntei a polpa do chuchu reservada,  uma pitada de páprica defumada e salsinha picada (em Porto Rico é comum juntar azeitonas e passas, além de tomate - veja no google, há várias receitas).

Distribuí a carne entre as concavidades e cobri com pão ralado misturado com queijo da canastra (meia cura) e requeijão moreno (de Minas também), ambos ralados.Coloquei por cima uns pedacinhos de manteiga, levei ao forno quente e deixei dourar um pouco. Na hora de servir, juntei mais canastra puro. E comi com mais nada. Nhac.


Os germes, dourei no azeite e nhac também!  (são adocicados, com sabor que lembra alga)